Data centers no Nordeste: o que muda para quem vai investir

Por Mauro Buarque, CEO e cofundador da Método Ambiental

O Nordeste concentra hoje os maiores projetos de data center anunciados no Brasil. Entenda o que essa infraestrutura exige de energia, água e licenciamento ambiental, e quais soluções tornam esses empreendimentos viáveis.

O essencial em cinco pontos

▪  Os data centers consumiram cerca de 485 TWh de eletricidade no mundo em 2025, próximo ao consumo elétrico anual da França. A projeção é dobrar até 2030.

▪  O Brasil opera cerca de 205 data centers e pode atrair até 33 bilhões de dólares em investimentos no setor.

▪  O Nordeste reúne energia renovável em escala, custo competitivo e acesso a cabos submarinos, o que o tornou destino prioritário para projetos de hiperescala.

▪  Cinco desafios definem a viabilidade ambiental: energia, água, calor, ruído e território. Todos têm resposta técnica quando tratados na concepção.

▪  Vinte e dois dos vinte e sete estados, entre eles Pernambuco, não têm norma específica de licenciamento ambiental para data centers.

Por que o Nordeste virou destino prioritário

A infraestrutura física da inteligência artificial está sendo construída agora, em escala industrial, e o Brasil entrou nessa rota.

Em 2025, os data centers consumiram cerca de 485 terawatts-hora de eletricidade no mundo, volume próximo ao consumo anual da França. A Agência Internacional de Energia projeta que esse número dobre até 2030, alcançando 3% de toda a demanda mundial e as Nações Unidas estima que o consumo de água desses empreendimentos possa chegar a 9,3 trilhões de litros por ano.

No Brasil, atualmente, operam cerca de 205 data centers, com projeção de atrair até 33 bilhões de dólares. E é no Nordeste que os maiores projetos se concentram.

A região reúne quatro vocações difíceis de encontrar juntas: Energia solar e eólica em escala industrial; custo energético entre os mais competitivos do país; acesso direto aos cabos submarinos de fibra óptica, tendo Fortaleza entre os principais hubs do Atlântico Sul, e, em fase de regulamentação, os incentivos fiscais tendo com o REDATA (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter) a previsão de bônus adicional para o Norte, o Nordeste e o Centro-Oeste.

Os anúncios de novas infraestruturas confirmam a tendencia.  A ByteDance, controladora do TikTok, iniciou a construção de um complexo no entorno do Porto do Pecém, no Ceará, com investimento estimado em 200 bilhões de reais e capacidade planejada de 300 megawatts. A Casa dos Ventos estrutura outro empreendimento de grande porte na região, com 50 bilhões de reais e energia integralmente renovável.

A rota global dos data centers e a convergência dos fluxos de investimento para o Nordeste brasileiro

Cinco são os desafios que definem a viabilidade ambiental

Investimento dessa escala traz uma equação que precisa ser resolvida com rigor técnico. São cinco os desafios que determinam se um projeto avança ou trava, e nenhum deles é impeditivo.

Energia

Um data center de hiperescala de 300 megawatts consome o equivalente a uma cidade de 2 milhões de habitantes. A pressão recai sobre a rede local e, eventualmente, sobre a tarifa dos moradores. Contratos de compra de energia renovável de longo prazo, subestação própria e armazenamento em baterias são o caminho já praticado por projetos bem estruturados. A abundância de sol e vento torna essa solução mais barata no Nordeste que em qualquer outra região.

Água

O resfriamento pode demandar centenas de milhares de litros por dia, dependendo da tecnologia. Sistemas de resfriamento a ar, circuito fechado e reuso de efluente tratado reduzem drasticamente esse consumo. Existe empreendimento de grande porte operando no Brasil com indicador WUE igual a zero, sem uso de água na refrigeração. Em região de estresse hídrico como o semiárido, essa escolha deixa de ser preferência e passa a ser condição.

Calor

Estudo da Universidade de Cambridge publicado em 2026 mediu elevação média de 2 graus na temperatura de superfície após a entrada em operação de data centers, com picos de 8,9 graus e efeito sensível a até 10 quilômetros. Resfriamento líquido, telhados de alto albedo e reaproveitamento térmico compõem a resposta.

Ruído

O zumbido contínuo de baixa frequência, sem pausa noturna, é o impacto que mais gera conflito com a vizinhança. A ABNT NBR 10151 estabelece os limites aplicáveis. Posicionamento das fontes no layout, barreiras acústicas e protocolos operacionais resolvem a maior parte dos casos, desde que previstos antes da obra.

Território

A ocupação envolve muitos hectares, com efeitos sobre uso do solo, paisagem, tráfego e comunidades do entorno. O Estudo de Impacto de Vizinhança é o instrumento adequado, porém, segue subutilizado no país.

O Brasil na equação global dos data centers: mercado, incentivos e projetos em destaque

 

O licenciamento ambiental mal conduzido é onde os projetos travam

O caso do complexo do Pecém tornou concreto o que estava em tese. O empreendimento foi licenciado por Relatório Ambiental Simplificado, modalidade prevista para projetos de baixo impacto.

O consumo de água declarado no processo, de 19,7 mil litros diários, foi depois ampliado para 144 mil litros por dia. A ausência de consulta prévia às comunidades indígenas tornou-se objeto de investigação civil do Ministério Público Federal, que recomendou que a operação não se inicie antes do cumprimento de novas exigências. A obra segue, sob incerteza jurídica que nenhum investidor deseja carregar.

Não é caso isolado. Investigações sobre licenciamento de data centers avançam também em Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, em Uberlândia e em Maringá.

A experiência internacional reforça a lição. Nova York suspendeu por até um ano a emissão de licenças para data centers acima de 50 megawatts, para construir regras antes de autorizar. Na Virgínia, maior polo do setor no mundo, o apoio público a novos projetos caiu de 69% para 35% em três anos.

No Brasil, o cenário regulatório mudou de forma relevante. A Lei 15.190/2025, Lei Geral do Licenciamento Ambiental, é a maior reforma federal do tema desde 1981 e criou modalidades novas, como a licença por adesão e compromisso e a licença ambiental especial.

Ainda assim, data centers não estão tipificados de forma específica. Vinte e dois dos vinte e sete estados, entre eles Pernambuco, não editaram norma própria para a atividade. E o CONAMA aprovou, em julho de 2026, moção solicitando normas nacionais específicas para o setor.

A leitura é direta. Haverá marco regulatório e ele será mais exigente. Enquanto isso, cada projeto negocia seu enquadramento com uma certeza: o atalho que economiza meses no início costuma custar anos depois. A diferença entre um projeto que avança e um que trava raramente está no tamanho do investimento. Está na qualidade da assessoria técnica escolhida.

A viabilidade ambiental precisa ser considerada antes do investimento

O ponto de decisão mais valioso de um projeto de data center não está no protocolo do licenciamento. Está antes, na escolha do terreno e na leitura das condições ambientais do território. Restrições hídricas da bacia, proximidade de comunidades tradicionais, sobreposição com áreas protegidas, limitações de zoneamento e capacidade da rede elétrica local são informações que mudam o valor do ativo. Identificá-las depois da aquisição é o erro mais caro dessa cadeia.

A expertise da Método Ambiental é lastreada pela experiencia de seus diretores, que possuem décadas de vivencia no licenciamento de empreendimentos complexos. Seu assessoramento preventivo e sua diligência institucional conseguem antecipar os desafios postos nos processos em que atua. Conduz os diagnósticos de viabilidade socioambiental que antecipam esses riscos enquanto ainda há tempo de ajustar o projeto.

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Perguntas frequentes

Por que os data centers estão indo para o Nordeste?

Pela combinação de energia solar e eólica em escala industrial, custo energético competitivo, acesso direto aos cabos submarinos de fibra óptica e incentivos fiscais, com o REDATA prevendo bônus adicional para a região.

Data center precisa de licenciamento ambiental no Brasil?

Sim. Ainda que a Resolução CONAMA 237/1997 não liste a atividade e a Lei 15.190/2025 não a tipifique de forma específica, o empreendimento está sujeito ao licenciamento pelo porte, pelo consumo de energia e água, pelo ruído contínuo e pela ocupação territorial.

Quanta água consome um data center?

Varia conforme a tecnologia de resfriamento. Sistemas evaporativos podem demandar centenas de milhares de litros por dia. Já existem empreendimentos no Brasil operando com resfriamento a ar e consumo hídrico igual a zero no processo de refrigeração.

Pernambuco tem norma própria para licenciar data centers?

Não. Pernambuco está entre os vinte e dois estados sem norma específica para a atividade. O licenciamento segue o arcabouço geral e é conduzido pela CPRH, o que torna o enquadramento inicial decisivo para a previsibilidade do cronograma.

Quanto tempo leva para licenciar um data center?

Depende do rito adotado, do porte e da qualidade dos estudos apresentados. O maior fator de atraso não é o órgão licenciador, e sim o enquadramento inadequado e os estudos subdimensionados, que geram exigências sucessivas.

Mauro Buarque é CEO e cofundador da Método Ambiental, consultoria especializada em licenciamento e legislação ambiental em Pernambuco e no Nordeste.

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